O CÓDIGO DA VINCI DESBANCADO


Não é “indavincível” – Uma análise e crítica de “O Código da Vinci”

Por: J. P. Holding – Tekton Apologetics Ministries (http://www.tektonics.org/)

 

O artigo original, em inglês, atualizado, e com respostas aos críticos pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.tektonics.org/davincicrude.htm. Caso o leitor saiba inglês, no link original há também uma lista de leituras recomendadas para se aprofundar no tema.

Algumas perguntas nos foram enviadas a respeito do best-seller O Código da Vinci, de Dan Brown. Este livro chegou à lista dos mais vendidos a partir da distribuição de algumas cópias gratuitas e tem inspirado alguns questionamentos, muita atenção da mídia, e preocupação por parte de cristãos que não gostam das idéias, mas não têm as respostas para o conteúdo do livro. O livro também foi a inspiração para um programa especial no horário nobre da ABC network [1], e recentemente, a Sony Pictures anunciou que adquiriu os direitos autorais para produzir um filme baseado no livro [2]. A Sony reuniu um elenco talentoso para a produção, que inclui o proeminente diretor Ron Howard.

 

Vamos começar com uma avaliação literária clara. A história de O Código da Vinci lembra o provérbio que fala sobre comer comida chinesa e continuar com fome depois: Embora tenha 480 páginas, a história simplesmente não satisfaz. No início há um assassinato, e pelas próximas páginas os personagens principais saem correndo pela França e Inglaterra, indo de um enigma criptográfico ao próximo como se fossem assistentes mirins do Batman perseguindo o vilão Charada. Enquanto correm por aí, estes personagens deixam para trás quase todos os vestígios de personalidade, o que é justo, pois na maioria das vezes eles encontram vilões de “jogos de cartas” também pobremente desenvolvidos. A idéia de Dan Brown de dar dimensão a um personagem parece ser ou tê-los mudando de aliados sem aviso, ou então dar a eles algum tipo de condição desabilitante, como albinismo ou precisar de bengala para andar. (Improvavelmente, o personagem albino não parece sofrer da perda de acuidade visual que acompanha esta condição [3]).

 

O que realmente nos interessa aqui é o porquê de toda esta correria. Nossos bat-mirins estão atrás do cálice sagrado, que no universo de Dan Brown, que é como se fosse moldado por especulações e teorias de conspirações populares ao invés de estudos comprovados, não é a taça de Cristo ultimamente perseguida por Harrison Ford, mas sim uma “linhagem real” composta dos descendentes de Jesus Cristo e (quem mais?) Maria Madalena. Esta teoria já havia sido promovida anteriormente sem sucesso, mais notavelmente em 1983 no livro Holy Blood, Holy Grail, de Michael Baigent et al, (New York: Dell). (Em português: O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira). Livro este que tem sido muito criticado (Ver, por exemplo [em inglês]: http://anzwers.org/free/posmis/ , http://www.alpheus.org/html/articles/esoteric_history/richardson1.html e http://www.anzwers.org/free/posdebunking/).

 

Nossos heróis são informados de que dentro da tumba de Maria Madalena há vários tipos de documentos secretos, cujos conteúdos irão arruinar o cristianismo da forma como hoje o conhecemos. Estas “verdades” recuperadas irão pavimentar o caminho para que nós retornemos a uma espiritualidade mais iluminada cujo centro é o divino feminilizado, conhecido como adoração à deusa. A idéia de que a religião foi originalmente matriarcal, ou dominada por adoração a uma deusa, e mais tarde (sob o domínio judaico-cristão) mudou para o monoteísmo patriarcal (dominado pelos homens) é um mito. Não é verdade. Não há evidência de que qualquer movimento religioso significante tenha divindades femininas dominantes – elas sempre foram ligadas aos seus parceiros masculinos, e normalmente em um papel servil. Ver por exemplo, In the Wake of the Goddesses [Na Pista das Deusas], de Tikva Frymer-Kensky (New York: Ballantine Books, 1993) e Goddess Worship, Witchcraft, and Neo-Paganism [Adoração à Deusa, Bruxaria e Neo-Paganismo], de Craig Hawkins (Grand Rapids: Zondervan, 1998). A maior parte do livro é gasta na busca pela localização desta tumba, mas no fim –sinto muito!- o livro acaba com o personagem principal encontrando a tumba e não revelando nada, então nós nunca saberemos se a cripta de Maria Madalena continha um novo evangelho secreto ou se era a lista de compras de Judas Iscariotes. Entretanto, anteriormente a esse final pouco inspirador, em vários capítulos, são oferecidos certos pedaços de “informações” que originaram dúvidas entre nossos correspondentes, e agora nós iremos focar nisto.

 

Mas é só ficção…

 

“Não é uma obra fictícia? Por que se preocupar com alguns fatos fora de lugar?” Realmente, por quê? Enquanto eu estava na livraria da esquina esperando na fila para adquirir o livro, examinei um capítulo primário problemático, tendo sido prevenido por Bob Passantino [apologeta do website Answers in Action -- http://www.answers.org/] sobre esse conteúdo. Uma mulher atrás de mim disse: “Esse é um ótimo livro!” Eu olhei para ela e respondi: -“Na verdade não, é cheio de análises sem base”.

 

A mulher ficou chocada. “Mas é só ficção”, ela disse. Curiosamente, entretanto, ela pediu um exemplo.

 

“Bem, A data da descoberta dos pergaminhos do mar morto está errada” [4], eu disse, e apontei os detalhes do erro. Se o autor não consegue pegar um dado tão elementar e fundamentá-lo corretamente, no que mais ele estaria errado? “Interessante”, ela disse, concordando balançando a cabeça. Muito mesmo. A semente da dúvida é importante, e o autor usa isto para atrair seus potenciais leitores. Uma das primeiras coisas que o leitor de O Código da Vinci verá, no prefácio, e sob um título onde se lê: “FATO”, está a seguinte afirmação:

 

Todas as descrições das obras de arte, arquitetura, documentos, e rituais secretos neste romance são precisas.

 

Em termos de documentos e rituais, entretanto, e mesmo das obras de arte e arquitetura [5], O Código da Vinci contém poucos “fatos” e o pouco que contém requer certificação séria. Tudo isto poderia ser desculpado, exceto pelo fato de que Brown batiza tais aspectos do livro com a tarja de FATO, e de que muitos destes fatos saem da boca de um personagem chamado Teabing, que é descrido como um respeitável historiador. Eu prefiro pensar que se qualquer historiador acadêmico genuíno fez certos comentários como os de Teabing, ele deveria ser prontamente rebaixado para o posto de zelador e detido para treinamento em “História 101”. Tristemente, o truque por baixo da “capa de fato” de Dan Brown enganou outras pessoas, incluindo o crítico editor do New York Daily News, que ingenuamente comentou que “a pesquisa de Brown é impecável”.

 

O trabalho é de ficção sim, mas declara estar enraizado em fato. Deve-se acrescentar que, o próprio Brown reconheceu, em um especial de televisão, que passou a acreditar nas teorias sustentadas pelo seu livro, após supostamente ter tentado refutá-las. Nós não deveríamos deixar isso passar, da mesma forma que alguém não deixaria passar uma obra de ficção enraizada na premissa de que certa raça é inferior, e baseia essa declaração em uma afirmação do tipo: “Todas as descrições das culturas, biologia, sociologia e genética neste romance são precisas”. Será que um livro como este iria permanecer muito tempo nas prateleiras de uma livraria? Eu acho que não. Mas como o cristianismo como um todo, e o catolicismo romano são considerados “jogo-limpo” [para se falar mal], este tipo de obra é recebida como “ bom”, e não com indignação.

 

Deixando de lado questões de deficiências literárias e imperfeições a respeito de outras áreas menos importantes, o material que nos preocupa só emerge aproximadamente na metade do livro, no Capítulo 55. As afirmações abaixo saem da boca de Teabing, nosso historiador, respondendo algumas questões dos dois personagens principais sobre a natureza e contexto de sua busca. Começando com [todas as citações do livro, neste artigo, são traduções livres da versão em inglês]:

 

...”A Bíblia não foi enviada via fax do céu... a Bíblia é o produto do homem minha querida, não de Deus. A Bíblia não caiu magicamente das nuvens. O homem a criou como um registro histórico de tempos tumultuados, e ela evoluiu através de incontáveis traduções, adições e revisões. A história nunca teve uma versão definitiva do livro” [6].

 

Mesmo neste vago sumário, muitos problemas aparecem:

 

A visão implícita sendo tratada – que “A Bíblia foi enviada via fax do céu”, ou “caiu das nuvens” – é um boneco-de-palha tendencioso. A Bíblia foi escrita por homens, sim, sob a inspiração do Espírito Santo. Entretanto, nunca foi declarado que esta inspiração envolveu o Espírito Santo atuando sobre os autores e fazendo que eles agissem sob a ação de forças não-naturais, e muito menos de que ela caiu das nuvens. Ao invés disso, acredita-se que Deus escolheu instrumentos específicos dos homens e que o Espírito Santo os guiou [7].

 

“Incontáveis traduções, etc”. É uma hipérbole e uma generalização vaga. Sem uma acusação específica do que foi traduzido, adicionado ou revisado, é impossível responder a isto especificamente. Geralmente, entretanto, podem-se oferecer estas considerações:

 

Problemas de tradução com a Bíblia não são diferentes dos mesmos problemas de tradução para qualquer documento, e não causam mais dificuldades. O enunciado implica que há grande confusão com a tradução e isto é preocupante. É verdade que existem problemas discutíveis em termos de tradução da Bíblia do hebraico e grego antigos para qualquer língua moderna, mas isto é uma função natural de todos os processos de tradução, e de forma alguma se acredita que isto desmerece o oferecimento de uma explicação razoável, “final”, do que foi escrito. Na verdade, a transmissão dos textos antigos, a volumosa qualidade de cópias de manuscritos, a ciência da crítica textual, e a arte da tradução, asseguram que qualquer tradução moderna respeitável da Bíblia é fiel ao que foi originalmente dito. Este assunto tem sido explicado tão compreensivelmente e tão bem por tantos estudiosos, que a má interpretação dos fatos por parte de Brown não tem desculpa.

 

Os argumentos imaginários de Brown contestando a confiabilidade do texto bíblico são tão pouco sofisticados e fora de lugar que um exemplo será suficiente para mostrar suas fraquezas. Em Aramaic Sources of Marks Gospel [Fontes em Aramaico do Evangelho de Marcos], o estudioso da Bíblia, Maurice Casey examina o processo de utilização de fontes em aramaico por Marcos, para compor seu Evangelho em grego, oferece uma lista de complicações inevitáveis de tradução e bilingüismo, e exemplos práticos. Como um bilíngüe aprende um idioma – e como ele o mantém em uso – inevitavelmente afeta a sua habilidade de tradução. Há uma vasta diferença entre uma pessoa que cresce aprendendo duas línguas (e pode, portanto, ser menos proficiente em ambas) e uma pessoa que aprendeu uma segunda língua, e não usa a sua primeira língua por muitos anos. Um estudioso moderno que aprende grego ou hebraico antigos deve encontrar dificuldades semelhantes. Como Casey explica, “Todos os bilíngües sofrem de interferência”, e os tradutores mais ainda [8]. Alguns exemplos oferecidos por Casey retornam a este ponto:

 

 

 

“Perhaps it doesn't understand English,” thought Alice, “I dare say it's a French mouse, come over  with William the Conqueror.”

[“’Talvez ele não entenda inglês’, pensou Alice, ‘Eu ouso dizer que é um rato francês, veio junto com William o Conquistador’.”]

 

Uma edição substituiu a palavra “inglês”, de forma que a tradução simplesmente dizia que o rato não entendia “muita coisa”, e para fazer a referência a William o Conquistador compreensível, foi adicionada uma frase sobre William ter vindo da Inglaterra. Uma tradução diferente fez ser o alemão, o idioma não entendido pelo rato, e trocou William por Napoleão [9]. Sendo assim, houve dois métodos diferentes de se fazer com que o texto se tornasse compreensível para leitores de países distintos.

 

 

 

Tais são os problemas típicos de se traduzir um texto de uma língua para outra. O tipo de conhecimento aprofundado requerido para realizar uma tradução exata está simplesmente além do conhecimento da maioria das pessoas, e apresenta uma impossibilidade prática. Isto não significa que, quando não formos capazes de prover traduções “definitivas” para cada uma das palavras imediatamente, devamos apertar um botão de pânico que nos dê todos os significados implícitos em cada palavra e a certeza do que está sendo dito. Os exemplos acima claramente transmitem o significado principal da passagem, mesmo se alguma nuance é perdida para falantes não-nativos da língua. Estudos lingüísticos continuam a ser realizados até hoje, dando-nos novas percepções em linguagens antigas. Isto não vale somente para línguas bíblicas, mas também para outras línguas antigas como o latim. Um historiador profissional, diferente do ficcional Teabing, nunca faria uma generalização tão ridícula.

 

Adições e revisões também não são um problema maior do que aqueles encontrados em qualquer outro documento. Novamente, sem uma “adição” ou uma “revisão” específica para abordar, nós somente podemos oferecer alguns pontos gerais. Existem certos pontos de controle que nos dão uma certeza razoável a respeito do significado do texto bíblico original. O primeiro grupo de pontos de controle vem através do processo chamado crítica textual. Basicamente, os estudiosos coletam e comparam cópias do trabalho em questão, estabelecem suas idades relativas, e assim decidem qual é a cópia mais verossímil ao documento original. Em termos de evidência, é comum falar da abundante riqueza de evidências que nós temos para o texto do Novo Testamento, compreendendo mais de 24000 cópias ou pedaços de manuscritos, alguns datando dos séculos II e III. Em contraste, considere que as palavras do historiador romano Tácito, escrevendo por volta do ano 100 D.C., são confirmadas por menos de 12 manuscritos, datando de muito tempo depois do mais antigo, que por sua vez data do século XI! O Velho Testamento não tem a mesma qualidade de evidência em manuscritos, mas ainda assim excede significantemente a maioria dos outros trabalhos antigos, como os de Tácito. Com base nisto, é difícil justificar qualquer reivindicação de que nós não possuímos uma idéia “definitiva” do que estava escrito nos originais da Bíblia (Autographa), a menos que se queira rejeitar todos os outros escritos antigos também.

 

Escritores antigos tinham razões justificáveis para realizar certos tipos de revisões: Quando a linguagem mudava ou certos fatos tornavam-se menos conhecidos, era necessário ajustar o texto a fim de que ele permanecesse coerente para leitores mais recentes. O historiador grego Heródoto, por exemplo, utilizou unidades de medidas gregas para relatar peso, moeda e distância, que não eram utilizadas nas localidades dos povos que fez relatos a respeito. Heródoto fez isso mesmo quando traduziu escrituras feitas pelos povos que estudou. Tais revisões são muito fáceis de discernir, então não é tão problemático chegar a uma versão “definitiva” do texto bíblico. Além disso, os escritores antigos não deviam se confundir com revisões de conteúdo em grande escala ou mudanças na ideologia, e certamente elas não eram “incontáveis”, se é para que tenhamos algum respeito pela evidência propiciada pela crítica textual.

 

Teabing continua com afirmações mais específicas:

 

“Jesus Cristo foi uma figura histórica de influência chocante, talvez o líder mais enigmático e inspirador que o mundo jamais viu [...] Compreensivelmente, sua vida foi registrada por milhares de seguidores em sua terra [...] mais de 80 Evangelhos foram considerados para o Novo Testamento, contudo, somente alguns foram escolhidos para a inclusão, como os de Mateus, Marcos, Lucas e João... A Bíblia, como a conhecemos hoje, foi compilada pelo imperador romano pagão, Constantino o Grande” [12].

 

Foi Jesus uma figura histórica de “influência chocante”, sobre o qual “milhares de seguidores” escreveram algo a respeito? As respostas são: “Não exatamente”, e “A evidência não permite concluir isto”.

 

Jesus se tornou uma figura de “influência chocante” somente APÓS a igreja cristã se tornar uma força proeminente. Segundo os historiadores daquele tempo, Jesus foi somente um pontinho na tela da TV. Jesus não era considerado como historicamente significante pelos historiadores de seu tempo. Ele não discursou no senado romano ou escreveu extensos tratados de filosofia grega; Ele nunca viajou para fora da região da Palestina, e também não foi membro de qualquer partido político conhecido. Ele se tornou conhecido somente porque os cristãos posteriormente o tornaram uma “celebridade”. O historiador E. P. Sanders, ao comparar Jesus a Alexandre o Grande, nota que Alexandre “Alterou de tal forma a situação política em tão grande parte do mundo, que as informações gerais sobre sua vida pública são realmente bem conhecidas. Jesus não mudou as circunstâncias sociais, políticas e econômicas na Palestina [...] a superioridade da evidência da existência de Jesus é vista quando nos perguntamos o que ele pensava” [13]. Além disso, Jesus foi executado como um criminoso, o que lhe deu uma marca de marginalidade máxima. Ele tinha um estilo de vida ofensivo e alienou muitas pessoas. Associou-se com os desprezados e rejeitados: Coletores de impostos, prostitutas e o bando de pescadores que ele tinha como discípulos. Finalmente, ele era pobre, uma pessoa do campo em uma terra governada por ricos das cidades. A idéia de que Jesus tinha uma “influência chocante” durante a sua vida na terra é completamente errônea, o que significa que ele não poderia ter tido “milhares de seguidores” para escrever biografias autorizadas. Na verdade, três ou quatro biografias seria o máximo que nós esperaríamos, especialmente porque de 90 a 95 % de todas as pessoas do mundo antigo eram analfabetas e incapazes de escrever tais obras.

 

Havia 80 Evangelhos, dos quais somente quatro foram escolhidos? Se for assim, então nós temos justificativa para fazer várias perguntas:

 

1) Quais são as datas dos manuscritos dos evangelhos “excluídos”? Se devemos considerar tais trabalhos, devemos saber o quão próximos eles são do tempo que Jesus viveu. Uma forma de se determinar isto é saber qual é o manuscrito mais antigo. Quando nós olhamos para a evidência (tristemente, a evidência não parece incomodar Brown de forma alguma), nós encontramos que enquanto há um conhecimento e aceitação universal por parte dos cristãos dos quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), pela metade do século II, nenhum dos Evangelhos não pertencentes ao Cânon era próximo nos quesitos data de composição, amplitude de distribuição, ou proporção de aceitação. Estes eram, em sua maioria, pseudo-evangelhos atribuídos a outros Apóstolos, mas geralmente desqualificados pela maioria das igrejas porque eles não tinham um “encadeamento de evidências” histórico conectando-os aos Apóstolos reais, e/ou porque eles continham afirmações contrárias ao que já era aceito nos Evangelhos canônicos. Esta questão é também bem conhecida entre os estudiosos da Bíblia, e informação a respeito pode ser facilmente obtida em livros escritos para leigos, tais como: A General Introduction to the Bible [Uma Introdução Geral à Bíblia]  (Chicago: Moody Press, 1986), de Norman Geisler e William Nix; ou on-line, em fontes documentadas como as da Internacional Standard Bible Encyclopedia [Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional], disponíveis no seguinte endereço eletrônico [em inglês]:

http://www.reference-guides.com/isbe/B/BIBLE_THE_IV_CANONICITY/

 

2) Existe alguma evidência destes Evangelhos “excluídos” estarem sendo utilizados em um período anterior? É também útil encontrar citações de um trabalho em obras de escritores contemporâneos, pois se eles citam um trabalho, isto é evidência de que ele existia no tempo que foi escrito. Embora possam ter existido aproximadamente 50 Evangelhos pseudo-epígrafes, a maioria é conhecida somente pelo nome, a partir de alguns enunciados escritos por escritores da igreja antiga. Os mais significantes são bem conhecidos e as razões para nunca terem sido aceitos pela maioria da igreja são bem conhecidas e nunca foram mantidas em segredo por qualquer hierarquia. Geisler & Nix propiciam aos leitores leigos um bom sumário desta questão no seu livro referenciado anteriormente (páginas 297-317) dizendo: “A literatura extra-canônica, como um todo, apresenta uma pobreza surpreendente. A maior parte dela é fabulosa, e carrega a marca clara da falsificação. Somente aqui e acolá, em meio a uma massa de bobagens inúteis, é que nós nos deparamos com uma jóia inestimável” (311). Na verdade, essas jóias inestimáveis, na maioria dos casos são meras repetições do que nós já encontramos em um ou mais dos Evangelhos canônicos.

 

3) É o contexto coerente com o que nós esperaríamos do Jesus histórico? Em outras palavras, se é dito que Jesus abriu uma geladeira, pegou um burrito, e o colocou num forno de microondas, então nós podemos estar bastante seguros de que isto não relata com precisão as atividades de um Jesus que vivia no século I. Por exemplo, no Evangelho dos Ebionitas nós lemos que João Batista não comia mel e gafanhotos, mas somente mel, ao contrário do que os Evangelhos canônicos relatam. Os Ebionitas eram vegetarianos e não deixaram a verdade atrapalhar com sua agenda de dieta vegetariana. O evangelho de Pedro pôs a culpa da crucificação somente nos judeus, exonerando os romanos – uma posição anti-semítica que Brown deveria considerar intolerável. Os mesmos “Evangelhos” que Brown usa como recurso para minar a história consistente dos Evangelhos canônicos promove ensinamentos completamente contrários à cristandade secreta que Brown diz que eles representavam!

 

Este é o tipo de dado que os estudiosos levam em consideração quando decidem se um documento é uma fonte confiável. Neste capítulo Brown não diz o nome de nenhum dos outros evangelhos que ele tem em mente. Ele dirá os nomes de dois deles em um capítulo posterior, e nós os discutiremos quando formos discutir tais capítulos. Finalizando, é interessante notar que o sabido historiador de Brown perpetra dois erros graves que seriam um grande embaraço para qualquer estudioso:

 

“Felizmente para os historiadores [...] alguns dos evangelhos que Constantino tentou erradicar conseguiram sobreviver. Os pergaminhos do mar morto foram encontrados nos anos 1950 escondidos em uma caverna próxima a Qumran, no deserto da Judéia.” [14]

 

Primeiro, como eu expliquei para a mulher na livraria, os pergaminhos do mar morto foram descobertos em 1947, e não na década de 1950. (Nota para aqueles com problemas: Três pessoas escreveram para mim dizendo que Brown está certo porque os pergaminhos do mar morto continuaram a ser descobertos durante os 1950. Mas está claro que não foi isso que ele quis relatar, se fosse, ele teria dito que eles começaram a ser descobertos em 1947, continuando pela década seguinte. Sendo assim, isso continua sendo um erro. Além disso, eu notei com satisfação que dois experts no guia de Burstein [ver abaixo] criticam Brown por causa desse mesmo erro). Segundo, eles não contém nenhum Evangelho ou outra coisa mencionando Jesus. Eles são preponderantemente mais antigos do que o Novo Testamento, em sua maioria são cópias de livros do Velho Testamento, e documentos internos para a comunidade Qumran [15]. Brown também faz seu personagem alegar que o Vaticano “tentou bastante suprimir a liberação desses pergaminhos” porque eles supostamente contêm informações “danosas”. Isto é meramente uma teoria de conspiração ofensivamente arrogante utilizada por alguns escritores populares, sem ser baseada em fato [16]. Novamente, tem se escrito a respeito da evidência dos pergaminhos do mar morto, em tantos livros, jornais e artigos, muitos em nível mais acessível, que Brown só pode fazer suas afirmações errôneas recorrendo a uma completa desconsideração pelos fatos. Não há nada nos pergaminhos do mar morto que promova ou o Cristianismo tradicional ou o derivado. A comunidade em Qumran responsável pelos pergaminhos não era cristã, mas sim judia.

 

Mas enquanto os pergaminhos do mar morto não dizem nada diretamente sobre o Cristianismo, eles fornecem duas importantes verificações para o Cristianismo tradicional. Primeiro, os textos do Velho Testamento preservados entre os pergaminhos nos fornecem a verificação de que o Velho Testamento preservado pelos judeus e cristãos através dos séculos depois de Cristo são uma tradução precisa do que os judeus conheciam do tempo de Jesus. Segundo, a comunidade de Qumran reflete um judaísmo do século I muito mais semelhante ao apresentado pelos escritores do Novo Testamento do que aquele judaísmo que se desenvolveu após a destruição do segundo templo em 70 D.C.. Aqueles que especularam em tempos passados que o Judaísmo apresentado no novo testamento foi uma criação posterior por parte dos cristãos que se opunham ao judaísmo foram refutados pela informação que pudemos aprender nos pergaminhos do mar morto.

 

Foi Constantino quem decidiu que livros entrariam no Cânon? Como funcionou o processo? [17] Constantino não foi o organizador do cânon, e na verdade não teve nenhuma participação na montagem. De forma geral, a igreja foi a responsável. O processo de canonização do Novo Testamento foi baseado em um modelo que já existia há séculos, segundo o qual, várias religiões escolhiam uma coleção de livros sagrados normativos. É provável que o próprio Apóstolo Paulo tenha iniciado o processo ao reunir suas próprias cartas ou aquelas de seus amigos, como Lucas ou Timóteo fizeram. Longe de ser um processo arbitrário, ou um processo decidido por Constantino posteriormente, a formação do Cânon foi o resultado de escolhas minuciosas ao longo do tempo, por membros e oficiais da igreja interessados neste processo. Votos posteriores no Cânon eram meramente os passos mais definitivos tomados ao fim de um processo cuidadoso, longo, e algumas vezes difícil. O estudioso da Bíblia, Robert Grant, escreveu que na formação do Novo Testamento, o Cânon foi:

 

...[N]ão o produto de reuniões oficiais ou mesmo dos estudos de alguns teólogos. Ele reflete e expressa o auto-entendimento ideal de todo um movimento religioso que, apesar de diferenças temporais, geográficas, e mesmo ideológicas, pôde finalmente ser unificado na aceitação desses 27 documentos diversos que expressam o significado da revelação de Deus em Jesus Cristo e para sua igreja. [18]

 

Dizer que Constantino esteve por trás da formação do Cânon, ou que foi responsável pela destruição de Evangelhos que não aprovava é uma distorção absurda da história. Na verdade, Constantino reuniu o concílio em Nicéia, pagou as despesas das viagens dos que compareceram, e disponibilizou seu palácio de verão à beira de um lago para o concílio, mas ele não teve nenhuma autoridade eclesiástica. A informação que nós temos sobre o concílio é fascinante e de forma alguma apóia a idéia de um romano pagão distorcendo o “Cristianismo primitivo” ou qualquer outra conspiração. Uma boa introdução sobre os fatos do concílio está disponível na edição do verão de 1996 da revista Christian History [História Cristã], “Heresy in the Early Church” [Heresia na igreja primitiva], disponível no endereço eletrônico [em inglês]: http://www.christianitytoday.com/ch/51h/ .

 

“Os vestígios de religiões pagãs na simbologia cristã são inegáveis. Discos solares egípcios tornaram-se as auréolas dos santos católicos. Pictogramas de Ísis amamentando seu filho Hórus, concebido milagrosamente, tornaram-se o projeto artístico para as nossas imagens modernas da Virgem Maria amamentando o menino Jesus. E virtualmente todos os elementos do ritual católico – a turba, o altar, os louvores, a comunhão, o ato de “comer Deus” – foram tirados diretamente de religiões pagãs antigas”. [19]

 

Em seu texto, Brown só comenta sobre uma religião misteriosa em particular, que supostamente seria uma fonte para as crenças cristãs (ver abaixo), mas no geral, pode se responder:

 

A tomada do simbolismo é verdadeira – mas significa vitória ideológica, e não pegar emprestado. Para começar, note que nós não estamos falando do Cristianismo apostólico do século I, mas do Cristianismo dos séculos III e IV. O que nós vemos aqui não é bem pegar emprestado, mas um tipo de propaganda, ou um tipo artístico de superação competitiva. A divindade pagã Mitra [antigo deus sol persa, deus da verdade e da luz] era apresentado cavalgando um touro e o matando: A igreja produziu uma cena semelhante com Sansão matando um leão. Mitra atirou flechas em uma rocha para produzir água: A igreja mudou isso para Moisés tirando água da rocha no monte Horeb. Por que se fez isso? Porque esta foi uma época em que a arte era geralmente imitativa. As pessoas do “mundo” do Novo Testamento pensavam em termos do que poderiam ser “probabilidades”, ou verificação da experiência geral ou anterior. A imitação era uma forma de expressar superioridade: “Mitra não é o verdadeiro herói, Sansão é, ignore Mitra.” “Esta religião misteriosa usa uma turba como sinal de poder. Bem, nós é que temos o poder verdadeiro, nós reivindicamos a turba”. Note que pegar emprestado envolvia somente arte e ritual – Não envolvia a tomada da ideologia.

 

Agora em termos da única religião misteriosa que Brown cita, o Mitraísmo:

 

O deus pré-cristão Mitra – chamado de filho de Deus e a luz do mundo – nasceu em 25 de Dezembro, morreu, foi enterrado em uma tumba de pedra, e então ressuscitou após três dias.

 

Não surpreendentemente, os estudiosos do Mitraísmo não sabem nada a respeito disso. Vamos analisar uma afirmativa de cada vez:

 

Ele era chamado de filho de Deus e a luz do mundo: Isto é simplesmente falso. Eu já havia previamente examinado a literatura sobre estudos mitráicos e estes títulos não são conhecidos por estudiosos do Mitraísmo [20].

 

Ele nasceu 25 de Dezembro: Isto pode ser verdade, mas não tem relevância, pois o Novo Testamento não associa o dia 25 de Dezembro ao nascimento de Jesus, de jeito nenhum. Quando a igreja cristã escolheu este dia para a celebração do aniversário de Jesus Cristo, eles o fizeram em oposição direta ao festival pagão do solstício de inverno, Saturnalia, e não porque eles acreditavam que Jesus também havia nascido naquela data (assim como Mitra).

 

Ele morreu, foi enterrado em uma tumba de pedra, e então ressuscitou após três dias: Isto também é simplesmente falso. O estudioso do Mitraísmo, Richard Gordon, diz claramente que “não há a morte de Mitra [21] – O que significa não haver também um enterro de Mitra, e nem ressureição. Alguns escritores amadores citam o escritor da igreja do século IV, Firmico, que diz que os mitraístas guardam luto pela imagem de um Mitras morto, mas isto é tardio demais para ter influenciado o cristianismo (se ocorreu alguma influência, foi no sentido contrário), e após ler o trabalho de Firmico, eu não encontrei nenhuma referência a isso. Mais relevante talvez seja Tertuliano, escritor da igreja do século II, que em sua obra Prescrição Contra os Hereges, diz no capítulo 40: “se minha memória ainda me serve, Mitra [...] põe sua marca nas testas de seus soldados, também celebra a oblação do pão, introduz uma imagem da ressurreição, e antes de que a espada engrinaldasse uma coroa...” Portanto, o argumento depende da memória de Tertuliano, e não são os servos de Mitra, mas sim o próprio, que introduz a imagem de uma ressureição (?) – ele mesmo não é ressurreto.

 

Portanto, o comentário do personagem de Brown é uma avaliação tristemente errônea do que é relatado por estudos mitraístas.

 

“O Cristianismo guardava o sábado judeu [sabbath], mas Constantino mudou o dia para coincidir com a veneração pagã do dia do sol [sunday – domingo]”. [22]

 

Isto também é falso. Toda a evidência disponível indica que o Cristianismo já estava guardando o domingo há muito tempo antes de Constantino. Brown talvez esteja confuso porque certas passagens do Novo Testamento, por exemplo, registram Paulo indo à sinagoga no sábado para pregar aos judeus (se alguém quer pregar para os judeus e os gentios tementes a Deus que também o cultuavam, então é lógico procurar por eles justamente onde eles estariam – na sinagoga, no sábado!). Entretanto, é claro que os cristãos guardam o “primeiro dia da semana” (Atos 20:7; 1° Coríntios 16:2, cf. Apocalipse 1:10), e há também ampla evidência bem anterior a Constantino sobre o domingo sendo guardado:

 

  1. Inácio, bispo de Antioquia (110 D.C.), escreveu: “Se, então, aqueles que andam nas práticas antigas alcançam renovação de esperança, não mais guardando o sábado, mas moldando suas vidas após o dia do Senhor, no qual nossas vidas também surgiram através dele, que nós podemos nos descobrir discípulos de Jesus Cristo, nosso único professor”. Inácio especifica o “dia do Senhor” como aquele em que “nossas vidas surgiram através dele” – O dia da ressurreição, que foi em um domingo.

 

  1. Justino Mártir (150 D.C.) descreve o domingo como o dia em que os cristãos se reúnem para ler as escrituras e guardar sua assembléia, pois este dia é o primeiro da criação, e também o da ressurreição.

 

  1. A epístola de Barnabé (120-150) cita Isaías 1:13 e indica que o “oitavo dia” é um novo começo via ressurreição, e é o dia a ser guardado.

 

  1. A Didaché [ou ensinamento dos doze apóstolos] (70-75) instrui os crentes a: “No dia próprio do Senhor, reúnam-se, partam o pão e agradeçam”.

 

  1. Outros testemunhos posteriores, de Irineu, Cipriano e Plínio o Jovem, significantemente anteriores a Constantino, testificam que os cristãos adoravam o Senhor no domingo.

 

Então novamente, o “historiador” de Brown recebe uma nota deprimente em história.

 

“…[No Concílio de Nicéia] muitos aspectos do cristianismo foram debatidos e votados – a data da páscoa, o papel dos bispos, a administração dos sacramentos, e é claro, a divindade de Jesus […] Até aquele momento na história, Jesus era visto por seus seguidores como um profeta mortal […] um homem grandioso e poderoso, mas mesmo assim um homem. Um mortal”. [23]

 

Esta é uma meia-verdade. O Concílio de Nicéia realmente considerou visões alternativas de Jesus, não no nível de “mortal” versus “Deus”, mas sim como “eterno” versus “criado”. Houve este debate porque hereges eram contrários à visão já estabelecida de que Jesus era divino. A visão herética, defendida pelo presbítero Arius, acreditava que Jesus não era divino por natureza, mas já tinha sido criado por Deus há muito tempo atrás. Desta forma, nem mesmo os hereges argumentavam sobre Jesus ter sido um mortal ou um apenas um homem grandioso. (Aparte disso, Constantino, a quem Teabing tanto culpa, era simpatizante do arianismo!) [24].

 

Além disso, o próprio Novo Testamento dá claras evidências de Jesus sendo visto como divino:

 

 

 

 

 

 

Então, como visto, o capítulo 55 do Código da Vinci, é carregado de erros e representa a “pesquisa” mais pobre que se pode encontrar entre as duas capas do livro. Fazer um historiador falar este tipo de coisa é um insulto à profissão.

 

Nós pegaremos mais erros semelhantes no Capítulo 58. Assim como antes, Teabing e sua autoridade implícita de historiador são responsáveis pelas seguintes afirmações relevantes:

 

“[...] Jesus como um homem casado faz muito mais sentido do que nossa visão bíblica comum, de vê-lo como solteiro [...] Porque Jesus era judeu [...] o decoro social durante aquele tempo virtualmente proibia um homem judeu de não ser casado. De acordo com o costume judeu, o celibato era condenado, e a obrigação de um pai judeu era encontrar uma esposa adequada para o seu filho. Se Jesus não era casado, pelo menos um dos evangelhos da Bíblia mencionaria isso e ofereceria alguma explicação para o seu estado não-natural de solteiro”. [26]

 

Tudo isso é afim de arrumar uma explicação do suposto porquê de Jesus ter sido casado com Maria Madalena. São informações tiradas do material escrito por Leigh & Baigent (ver abaixo), e não de fontes reputáveis sobre os costumes judeus. E isso é correto? Novamente Teabing seria parado pela polícia da história por um trabalho de tão má qualidade. Primeiro, ele está cometendo a falácia clássica do argumento a partir do silêncio – Não se pode afirmar qualquer coisa que se quer simplesmente porque o texto não o nega. Segundo, os seguintes dados extraídos do website Christian  ThinkTank de Glenn Miller derrubam suas especulações no geral [27]:

 

Seria “normal” [Jesus] ter sido casado, mas isso não era obrigatório naquele tempo (ou em nenhum outro tempo, para falar a verdade).

 

1. A literatura rabínica [ou talmudista, ou talmúdica] – que é o que as pessoas geralmente usam para argumentar que o celibato era uma ofensa capital (!) – Nota e regulamenta as exceções às regras, que por sua vez não eram obrigatórias:

 

            “Na verdade, o celibato não era comum, e era desaprovado pelos rabinos, cujos ensinamentos diziam que o homem deveria se casar aos 18 anos, e que se ele passasse dos 20 anos sem ter se casado, teria violado um comando divino, o que desagradaria a Deus. O adiamento do casamento era permitido aos estudantes da lei, de forma que pudessem se concentrar nos estudos, livres das preocupações de sustentar e dar atenção a uma esposa. Casos como o de Simeon beAzzai, que nunca se casou, são evidentemente raros. Ele mesmo disse que um homem que não se casa era igual a um que mata, e isso diminuía a sua semelhança com Deus. Um de seus colegas o acusou de ser melhor na pregação do que como praticante, ao qual ele respondeu: O que eu devo fazer? Minha alma está apaixonada pela lei; a população do mundo pode ser mantida pelos outros [...] não é para ser imaginado que pronunciamentos sobre o dever de casar e a idade na qual as pessoas deveriam se casar, na verdade regulava a prática”. [HI:JFCCE:2.119f] [referência do website do autor] ...

 

2. O judaísmo no tempo de Jesus certamente foi uma “coisa muito fragmentada”, com os precursores dos ensinamentos dos rabinos sendo somente um grupo dentre muitos, um ponto de vista (na verdade múltiplos!) em um espectro de pontos de vista. Conseqüentemente, havia outros grupos naquele tempo que ou (a) requeriam o celibato, ou (b) o permitiam.

 

 

3. Mas a “classe dominante” dos indivíduos a quem era “permitido” ou “esperado” que fossem celibatários eram personagens proféticos, durante a história judaica:

 

 

“O mais bem conhecido, embora ainda excepcional, teria sido o indubitável celibato de profetas do deserto, como Banus (Josephus Life 2.11) e João Batista”. [DictNTB, s.v. “marriage] [referência do website do autor]

 

 

 

4. Embora os escritores rabínicos enfatizassem a importância do casamento para a procriação, é importante ressaltar que este ideal profético do celibato ainda apareceu nos escritos rabínicos:

 

“O judaísmo não via nada de errado em retratar como celibatário o grande profeta primordial, e legislador, Moisés (embora somente depois do Senhor ter começado a falar com ele). Nós vemos esta interpretação já começando a se desenvolver em Philo no século I. O que é mais surpreendentemente é esta idéia também ser refletida em várias passagens dos escritos rabínicos. A essência da tradição é um argumento a fortiori. Se os israelitas no Sinai tinham de se abster temporariamente das mulheres para se prepararem para receber as ordens de Deus, o quão mais Moisés deveria permanecer casto, já que Deus falava regularmente com ele (ver e.g., b. Yabb. 87a). A mesma tradição, mas do ponto de vista da ‘esposa desprovida’, é relatado no Sipre em Números 12.1 (99). Sendo que os rabinos eram contrários – para não dizer hostis – ao celibato religioso, a sobrevivência desta tradição de Moisés mesmo nos escritos rabínicos argumenta a favor de que a tradição tinha vida longa e era comum no tempo dos rabinos [...] Nesta visão de tradição “marginal” no judaísmo primitivo, não é surpreendente que o estudioso do judaísmo, Geza Vermes, tivesse alguma dificuldade em ver Jesus como celibatário e explicasse este seu estado incomum como função de seu chamado profético e recebimento do Espírito.” [MJ:1.340f] [referência do website do autor]

 

Então, embora fosse “normal” e esperado que um homem judeu jovem fosse casado, nós temos exemplos onde o celibato era aceito, encorajado ou requerido. Portanto, Jesus não obrigatoriamente teria de ser casado...

 

Miller adiciona que é um erro utilizar impropriamente a literatura rabínica (como provavelmente Teabing faz, por conta de Dan Brown), para supor que uma opinião rabínica fosse como uma lei. De acordo com Miller, o historiador E. P. Sanders nota:

 

“Há também um ponto mais geral relacionado a se chamar uma opinião de lei: Uma vez que alguém começa citando enunciados rabínicos como leis governando a Palestina, pode-se pintar um quadro daquela região no século I, da forma que se quer. Há milhares e milhares de páginas, preenchidas com opiniões.” [JPB:463] [referência do website do autor]

 

Estas “leis” podem não ser leis, mas também não são “simples descrições de práticas comuns, que alguém finalmente decidiu escrever” para uma proibição proposta precisamente porque tantas pessoas estavam fazendo justamente o contrário. Pode ser algo intencionado aos fariseus, ou pode ser uma expressão de um ideal que nunca foi seguido. Como Miller nota, citando o estudioso judeu Zeev Safrai: “De forma geral, o público não obedecia aos rabinos. Dentre os judeus, somente uma minoria seguia os rabinos, obedecia a suas decisões e era influenciado pelos seus sermões e ensinamentos morais [...] O estudioso ou leitor que deseja escrever sobre história real deve levar em consideração todos os tipos de possibilidades quando se depara com uma passagem rabínica. A resposta: ‘todos faziam algo porque os rabinos estabeleceram’ raramente é a resposta correta.

 

Portanto, é falso dizer que “faz infinitamente mais sentido” Jesus ter sido casado. É simplesmente falso afirmar que o “decoro social” (ou qualquer coisa do tipo) “virtualmente proibia um homem judeu de não ser casado”. É falso dizer que o “celibato era condenado”, e o silêncio sobre o assunto nos Evangelhos não dá de forma alguma espaço para se provar isto. (Adiciona-se aqui, finalmente, que Jesus realmente tem uma “noiva” – a igreja! É assim que o corpo de crentes é identificado em Apocalipse, o que claramente aponta para Jesus ter sido solteiro aqui na terra).

 

Em uma seção seguinte, o “historiador” de Brown repete seu erro sobre terem sido encontrados Evangelhos dentre os pergaminhos do mar morto. Ele também recorre a uma coleção de textos encontrados em um local chamado Nag Hammadi em 1945. Surpreendentemente, Teabing não menciona o mais famoso Evangelho alternativo encontrado nesta coleção, o Evangelho de Tomás [ou Tomé]. O porquê disto é bem claro: O Evangelho de Tomás termina com uma advertência de Jesus, dizendo que as mulheres devem “tornar-se homens” afim de encontrarem a salvação [28]! Nem é preciso dizer que isto não se encaixaria no conto de busca ao divino feminino de Brown! Ao invés disso, ele escolhe a dedo dois outros documentos:

 

O Evangelho de Filipe. Recomendado por Teabing como um “bom lugar para se começar”, Brown cita uma porção do texto na qual é dito que Jesus freqüentemente “beija” Maria Madalena “na boca” e, portanto, provoca ciúmes em Pedro. Teabing continua apontando que Maria é descrita como a “companheira” de Jesus, e isto supostamente é problemático para a visão dos Evangelhos canônicos [29].

 

Será que é? Brown faz Teabing dizer pouco sobre o evangelho de Filipe, e por um bom motivo. Os estudiosos têm absolutamente rejeitado este trabalho como fonte de registros históricos autênticos que não sejam derivados dos Evangelhos canônicos. Um distinto Professor de História e Estudos Religiosos da Penn State University, Philip Jenkins, é o nosso “Felipe” que irá desbancar o Felipe de Teabing. Em seu livro Hidden Gospels [Evangelhos Secretos], Jenkins explode o mito sobre o Evangelho de Felipe ser uma fonte confiável e/ou contemporânea da/sobre a vida de Jesus:

 

 

 

Teabing também recorre brevemente a um segundo documento, chamado “O Evangelho de Maria Madalena” [32]. Afirmando que “historiadores modernos” já investigaram o assunto (e implicando um veredicto positivo). Este Evangelho também mostra Jesus tratando Maria como uma companheira, e apresenta o ciúme de Pedro, após Jesus dar a ela instruções especiais para administrar a igreja após a sua crucificação. Levando à idéia de que Maria Madalena seria o “útero feminino que carregou a linhagem real de Jesus” [33], Teabing comenta:

 

Jesus foi o feminista original. Ele pretendia que a cultura de sua igreja estivesse nas mãos de Maria Madalena.

 

Entretanto, este Evangelho não tem um desempenho melhor que o de Felipe sob uma análise crítica. Ele também é um documento gnóstico que não reflete a realidade encontrada entre os judeus palestinos do século I. Jenkins nota que os fragmentos mais antigos datam do século III, e a maioria dos estudiosos não o datam de antes de 180-200 D.C., tão distantes de Jesus como nós estamos da guerra civil norte americana.

 

O que Brown realmente fez aqui é aceitar de forma não crítica, e como válidas, certas visões periféricas que estudiosos moderados como Jenkins rejeitam. Brown senta-se junto aos que afirmam que a tradição original era a de uma adoração à deusa e proeminência de Maria Madalena, que a igreja primitiva, maligna e dominada pelos homens, apagou. Mas como Jenkins observa, “...O mundo gnóstico deveria ser visto como a primeira de muitas reações populares contra as estruturas institucionais da igreja existente, do tipo que deveria ser comum ao longo da idade média e além dela” [35]. Simplificando, a igreja tinha uma reivindicação melhor, por “ter estado lá antes”. Os documentos da igreja têm a evidência de terem sido compostos primeiro, em termos de evidências de manuscritos, lingüística interna e certificação externa. A evidência de contexto para a sociedade dominada por homens, que é tão depreciada por “ideólogos” como Brown, é mais compatível com a cultura do Judaísmo, na qual o Cristianismo foi formado, enquanto o ideal de “divino feminino” que eles preferem só é encontrado mais tarde em materiais gnósticos.

 

Assim, nós encontramos (mesmo em Brown) “justificativas” necessárias para explicar o porquê da evidência ser toda a favor da igreja, desta forma, assumindo a “cegueira” de estudiosos em cima do muro como Jenkins: É dito que “A história é escrita pelos vencedores”, e toda a evidência para o Cristianismo com um ideal de feminismo foi destruída. Contudo, isto requer a questão natural, de como e por que, os vitoriosos venceram. Assume-se que a luta não foi honesta, que a Igreja aplicou um golpe baixo. Evidências como o Evangelho de Maria Madalena são admitidas, e “não-evidências” como a falta de cópias deste Evangelho de antes do século III são também admitidas como evidência. Simplesmente não há como deixar a Igreja vencer – não pode haver evidência a favor dela, assim, Brown e seu bando arrumaram o baralho para vencer no jogo. [36]

 

Em tudo isso é admitido que a Igreja Primitiva fosse patriarcal e dogmática, mas isto simplesmente não é o caso. Como Jenkins observa, o Novo Testamento nota um número de mulheres proeminentes (antes de ser “editado” ou “alterado”, a qualquer extensão conveniente que as teorias da conspiração requeiram). Vários comentadores no programa do horário nobre na televisão sugeriram que Maria, enquanto talvez não fosse esposa de Jesus, foi de alguma forma, próxima a Jesus. Isto é verdade, mas não da forma que Brown ou esses comentadores acham. Mulheres como Maria Madalena, Joana e Suzana “o serviam [Jesus] com os seus bens” (Lucas 8:3). O impacto desta passagem não é apreciado porque nós perdemos a pista do significado contextual: Isto significa que estas mulheres ricas eram patronas de Jesus, e que financiaram o seu ministério – sendo que, naquele tempo, ele teria sido um “cliente” que de alguma forma tinha obrigações para com elas. Posteriormente no Novo Testamento, personagens como Lídia, Júnias, Priscila e Febe são apresentadas proeminentemente. Isto não é para dizer que a Igreja era inteiramente igualitária, mas seria um erro considerá-la como misógina – quando as estruturas de autoridade da Igreja se tornaram menos favoráveis às mulheres, Jenkins adiciona: Foi porque a Igreja começou a seguir os modelos de administração romanos [37].

 

O uso de Maria Madalena reflete uma tática gnóstica em todos os sentidos. Como Jenkins observa, os gnósticos, precisando derrubar a autoridade papal/apostólica (note que o fato deles terem de fazer isto, pressupõe que em primeiro lugar, a tradição apostólica já tinha a vantagem!), tinham de escolher uma pessoa próxima a Jesus, mas que não fizesse parte do grupo dos apóstolos [38]. Os gnósticos também tinham uma visão de mundo que “demandava a existência de seres espirituais na forma de casais”, então a escolha de uma mulher como duplicata de Jesus era inevitável. Nas palavras de Jenkins, utilizar-se desses textos tardios “representa o triunfo da esperança sobre o julgamento” [39]. Brown não merece nenhuma credibilidade fazendo seus personagens confirmarem esses textos [40].

 

O Capítulo 60 nos oferece o mais próximo de uma pesquisa bibliográfica que Brown pretende prover. Seu personagem historiador diz que “foram feitos relatos aprofundados sobre a linhagem real de Jesus Cristo, por uma grande quantidade de historiadores”. Este grande número é reduzido a quatro (para nossa conveniência, ou por que não há mais?), mas um olhar mais detalhado sobre esses “historiadores” revela algumas anomalias. As pessoas que escreveram estes textos certamente não são historiadores no sentido acadêmico, isto é, reconhecidamente possuidores de diplomas acadêmicos nestas áreas, ou autores de publicações em periódicos cujos artigos são revisados [peer-reviewed]. E nem seus livros são publicados por editoras acadêmicas. Vamos dar uma olhada nos livros que Brown recomenda:

 

The Templar Revelation [A Revelação dos Templários], de Picknett & Prince. Eles não são historiadores. Os créditos em seu livro os caracterizam como “escritores, pesquisadores e conferencistas sobre o paranormal, o oculto, e mistérios históricos e religiosos”. Seus outros créditos autorais incluem algumas “obras primas” da história crítica, como The Stargate Conspiracy: The Truth About Extraterrestrial Life and the Mysteries of Ancient Egypt [A Conspiração “Stargate”: A Verdade Sobre a Vida Extraterrestre e os Mistérios do Egito Antigo] e The Mammoth Book of UFOs [O Livro Gigante dos OVNIs]. A Editora da Universidade de Harvard já está praticamente derrubando suas portas.

 

The Woman with the Alabaster Jar [A Mulher com a Jarra de Alabastro], de Starbird & Sweeney.  Impresso por aquela “boa” editora acadêmica, “Bear and Company” [Urso e Companhia], a autora deste livro diz ter Mestrado (mas não diz em que área) e ter estudado na Vanderbilt Divinity School [Escola de Teologia Vanderbilt]. Embora não seja dito se ela terminou o curso, e se algum material de seu livro foi retirado de algum artigo. Starbird é também a autora do terceiro livro que Brown destaca, The Goddess in the Gospels [A Deusa nos Evangelhos][41]. É notado que o livro a seguir foi uma influência primária para ela:

 

Holy Blood, Holy Grail [O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, disponível em português – Ed. Nova Fronteira], de Baigent e Leigh. Este livro, um bestseller que é uma mina de ouro para o tipo de “teorias” desenvolvidas por Brown, não é inteiramente confirmado por Teabing, que o critica e alfineta de “incerto salto no escuro”, mas o permite dizer que “a sua premissa fundamental é legítima”. É bom saber que algo é, porque as qualificações dos autores não são. O autor principal, Baigent, tem como única credencial, ser graduado em psicologia. Leigh é descrito em um local (um website promovendo suas qualidades como conferencista) como um “escritor e conferencista com um extenso conhecimento de história, filosofia, psicologia e esoterismo” o que parece ser uma forma cheia de rodeios de se dizer que ele não tem nenhuma credencial relevante no assunto.

 

Nenhum desses “estudiosos” são estudiosos mesmo, e nenhum estudioso do Novo Testamento, seja ele liberal ou conservador, é citado. Uma boa introdução ao Novo Testamento para os leigos está disponível em The Case for Christ [O Argumento a Favor de Cristo] (Zondervan, 1998) e The Case for Faith [O Argumento a Favor da Fé] (Zondervan, 2000), ambos de Lee Strobel.

 

Acima, nós temos a maior parte do material Bíblico de Brown. Daqui pra frente nós encontramos somente alguns pontos a considerar. No Capítulo 74 afirma-se que a “tradição Judaica antiga envolvia sexo ritualístico” no Templo Judeu, e que YHWH era adorado junto com sua esposa Shekinah. É difícil dizer de onde Brown tirou esta informação. Eu não estou ciente de nenhum estudo que a contenha. Isto não é certificado por nenhum comentarista importante da Bíblia ou arqueologia [42]. No Capítulo 77 Brown oferece um comentário sobre um nome próprio, Sesaque [Sheshach], que ele diz ser “mencionado repetitivamente no livro de Jeremias”. Este nome é uma palavra código para Babilônia. Isso é verdade, mas parece excessivo dizer que algo mencionado duas vezes (Jer. 25:26, Jer. 51:41) é mencionado “repetitivamente”. É adequado, agora no final, levar em consideração alguns comentários do Capítulo 82. O herói de Brown adverte que “toda religião no mundo é fundamentada em fabricação. Esta é a definição de fé: A aceitação de algo que nós imaginamos ser verdade, mas que não podemos provar” [43]. Não é mistério que um estudo contextual da palavra “fé” (pistis) no Novo Testamento e sua literatura contemporânea não gerará esta definição. A palavra é usada como um substantivo para se referir à “fé” Cristã como um conjunto de convicções, mas em muitos outros casos o significado intencionado é no sentido de fidelidade, ou lealdade, como a devida para alguém a quem se está destinado e/ou obrigado a servir. A relação entre o crente e Deus é forjada no Novo Testamento em termos de uma relação antiga entre cliente-benfeitor. Como os “clientes” de Deus, a quem ele tem mostrado uma bondade que nós não merecemos (graça), nossa resposta deveria ser a consciência dos deveres prescritos para aqueles a quem nós devemos prestar contas (Deus) e o grupo ao qual pertencemos (A família de Deus, o corpo de Cristo). Esta consciência é a expressão da nossa lealdade – em outras palavras, isto é a nossa pistis ou fé. “Fé” não é a aceitação do que não podemos provar, mas a confiança em alguém que se provou, nossa obrigação de confiar, e sermos servos confiáveis para com o nosso benfeitor (Deus), que nos tem provido com dádivas tangíveis (Cristo) e provou através disso a sua própria confiabilidade. Fé não é imaginação, mas a forma que nós reagimos à evidência. Os missionários do Novo Testamento não recorriam aos seus sentimentos, mas aos fatos: A ressurreição e a tumba vazia; os milagres de Jesus; e o cumprimento das profecias do Velho Testamento. Em outras palavras, evidência.

 

Aqueles que aderem à caricatura idealizada de Brown, entretanto, deveriam por razões óbvias preferir o tipo de “fé” mais “nebulosa”. É claro o porquê: Todos os seus documentos são datados de muito tempo depois; toda a sua evidência é “destruída”; todas as suas idéias são descontextualizações grosseiras. Não é surpreendente que o Código da Vinci termine com a abertura da tumba de Maria Madalena, e os supostos segredos continuem não sendo ditos. Se os ideólogos de Brown realmente possuem antigos documentos secretos que podem virar o mundo de cabeça para baixo, por que esses documentos agora não estão nas mãos de paleógrafos, experts em lingüística ou outros estudiosos para serem datados? Os missionários cristãos arriscaram suas vidas para pregar o Evangelho – o que os revisionistas temem?

 

Brown não é o primeiro a propor que o Cristianismo seja uma grande conspiração por parte do Vaticano e/ou outros para ludibriar o mundo sobre o Jesus verdadeiro, e ele não será o último. O que é surpreendente não é que ele audaciosamente rotule como “FATO” o que já foi totalmente refutado pela evidência. O que surpreende é que nossa cultura seja tão desinformada sobre o Cristianismo, lamentavelmente ignorante sobre a história, e não tenha a mínima idéia sobre a origem, composição, preservação e tradução da Bíblia. Este romance é baseado em uma falsificação tão frágil que se tivesse usado qualquer outro contexto na trama – uma vizinhança de periferia, uma investigação policial, um movimento pró-conservação do meio-ambiente – ninguém seria capaz de suspender a descrença por tempo o bastante para aproveitar a estória. É mais do que surpreendente que milhões de pessoas não tenham virado as costas ao Código da Vinci, é triste. Que os críticos e a mídia sejam tão ingênuos, é trágico.


[1] “Jesus, Mary and DaVinci”, ABC, 3 de Novembro de 2003.

 

[2] Ver: “Behind Tonight’s ABC Jesus Special”, http://www.worldnetdaily.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=35400.

 

[3] Ver: http://www.albinism.org/publications/what_is_albinism.html.

 

[4] Os pergaminhos do mar morto foram descobertos em 1947, e qualquer texto introdutório confirmará isso (ver por exemplo: http://www.encyclopedia.com/html/D/DeadS1eaS1.asp ).

 

[5] Embora esteja além do nosso escopo geral, é útil apontar mais alguns erros rudes de Brown nesta área, e em outras, que já foram notados por comentadores do livro:

 

 

 

 

 

 

 

[6] Dan Brown, The DaVinci Code (Doubleday, 2003), 231.   

 

[7] Brown é lamentavelmente ignorante sobre a origem e composição da Bíblia. Existem muitas fontes disponíveis sobre o assunto, tais como Revelation, Inspiration, and Illumination em http://www.answers.org/theology/illumination.html.

 

[8] Maurice Casey, The Aramaic Sources of Mark’s Gospel (Cambridge University Press, 1999), 94.

 

[9] Casey, 101.

 

[10] Casey, 105.

 

[11] Casey, 106.

 

[12] Brown, 231.

 

[13] E. P. Sanders, The Historical Figure of Jesus (Penguin Books), 3.

 

[14] Brown, 234.

 

[15] Há vários estudiosos que acreditam na possibilidade de existência de fragmentos de documentos do Novo Testamento dentre os pergaminhos do mar morto. Sem discutir sobre as suas teorias, para o propósito deste artigo eles são irrelevantes, mesmo se genuínos, pois eles estariam meramente reproduzindo porções incompletas do Novo Testamento, sem estabelecer ou promover qualquer idéia ou ensinamento cristão ou pseudo-cristão. Uma introdução a esta tese está disponível em: http://www.geocities.com/Heartland/7547/ntmss.html.

 

[16] Um bom início para se buscar informações on-line sobre os pergaminhos está em: http://www.biblicalstudies.org.uk/back_dss.html. Para um julgamento mais moderado sobre as controvérsias envolvendo os pergaminhos do mar morto, ver a compilação de Mahlon Smith em http://www.rci.rutgers.edu/~religion/iho/dss.html.

 

[17] Para se aprofundar neste assunto, ver “Seven Principles for Recognizing Canonical Books” -- http://www.answers.org/bible/canonicity.hmtl; J.P. Holding, “Canon Fire” – http://www.tektonics.org/lp/ntcanon.html.

 

[18] Robert M. Grant, The Formation of the New Testament (Harper and Row, 1965), 10.

 

[19] Brown, 232.

 

[20] Ver: J. P. Holding, “Mighty Mithraic Madness”, http://www.tektonics.org/copycat/mithra.html.

 

[21] Richard Gordon, Image and Value in the Greco-Roman World (Variorum, 1996), 96.

 

[22] Brown, 232-3.

 

[23] Brown, 233.

 

[24] Albert Mohler nota um erro particularmente evidente de Teabing, que afirma que a divindade de Jesus foi decidida em Nicéia por uma “votação relativamente apertada”. Na verdade somente dois dos 300 bispos no concílio não assinaram a confissão de fé afirmando a completa divindade de Cristo e condenando qualquer visão que o considerasse menos que isso! [no link para o artigo original há mais informações sobre o assunto].

 

[25] Uma explicação completa dos vários títulos atribuídos a Jesus por ele mesmo e pelos autores do Novo Testamento pode ser encontrada em: J. P. Holding, “The Divine Claims of Jesus” -- http://www.tektonics.org/jesusclaims/jesusclaimshub.html.

 

[26] Brown, 245. Este ponto foi reiterado pela feminista Karen King, professora de teologia, no programa de televisão, que afirmou que era “uma prática normal” para um homem judeu daquele tempo ser casado.

 

[27] Glenn Miller, “Did the Bible Lie About Jesus Not Being Married?, http://www.christian-thinktank.com/singlejesus.html.

 

[28] Jesus diz sobre Maria na passagem final de Tomás: “Eu mesmo irei orientá-la afim de torná-la homem [...] Pois cada mulher que se fizer homem irá entrar no reino dos céus”. Para um exame da confiabilidade do Evangelho de Tomás, ver: “Is the Gospel of Thomas Reliable?” – http://www.answers.org/bible/gospelofthomas.html; J. P. Holding, “Thomas Gospel Tizzy” -- http://www.tektonics.org/qt/thomasgospel.html.

 

[29] Brown, 246. Na entrevista ao Today Show, o estudioso da Bíblia, Roy Heller da Perkins University notou outro erro rude de Brown, quando ele afirmou que Maria Madalena era chamada de “companheira” de Jesus e que esta palavra em aramaico significa “esposa”. Heller notou que o Evangelho de Felipe foi escrito em grego, e não em aramaico. (Olson end Miesel [94] adicionam u estudo detalhado desta palavra grega, que é usada como “parceiros” em uma variedade de relacionamentos, incluindo os não sexuais).

 

[30] A datação dos evangelhos canônicos é um tema complexo. Para uma introdução aos argumentos, ver: J. P. Holding, “Gospel Dates, Gospel Authors” – http://www.tektonics.org/tekton_02_02_02.html. Há também questões relacionadas aos usos de fontes dos Evangelhos, e de uns dos outros; para uma introdução a essas questões, ver: “The Mysterious Case of the Missing Q”, http://www.answers.org/bible/missing_q.html; J. P. Holding, “Q Tips” -- http://www.tektonics.org/qm/qmhub.html/.

 

[31] Philip Jenkins, Hidden Gospels (Oxford Press, 2002), 69, 117. Em um programa do horário nobre da ABC, Elaine Pagels é citada dizendo que é possível que documentos como estes sejam “muito antigos”, embora não esteja claro se ela quis dizer “do século I” ou “muito antigos, como de 150 D.C., em comparação com a datação do século IV que outros determinam”. Se ela quer dizer a data mais antiga, ela está apenas supondo, não há absolutamente nenhuma evidência para apoiar isso. Se ela quis dizer 150 D.C. ou depois, eles estão enfrentando o desafio formidável que é a comum aceitação, por parte da igreja, dos quatro Evangelhos canônicos.

 

[32] Brown, 247.

 

[33] Brown, 248-9.

 

[34] Jenkins, 139.

 

[35] Jenkins, 118.

 

[36] Para uma resposta aos ataques sobre a confiabilidade da Bíblia, ver: “How Far Can We Trust the Bible?http://www.answers.org/apologetics/contradictions.html; “The Testimony of Two or Three Witnesses: We Can Trust the Factuality of the Gospel” – http://www.answers.org/bible/two_witnesses.html; W. R. Miller, “The Truthfulness of the Bible” – http://www.tektonics.org/guest/truthfulness.htm. Existem muitas fontes disponíveis on-line sobre a confiabilidade da Bíblia, de estudiosos extraordinários, dos quais Daniel B. Wallace é um exemplo (ver seus Inspiration, Preservation and New Testament Textual Criticism --  http://www.bible.org/docs/soapbox/inspiration.htm, The Conspiracy Behind the New Bible Translationshttp://www.bible.org/docs/soapbox/conspire.htm, e Why So Many Versions? --  http://www.bible.org/docs/soapbox/versions.htm).

 

[37] Jenkins, 131, 133.

 

[38] Jenkins, 142.

 

[39] Jenkins, 146.

 

[40] Para uma excelente visão geral sobre o tratamento favorável das mulheres na Bíblia, ver a série estendida de Glenn Miller em http://www.christian-thinktank.com/femalex.html. Para um exemplo de como se derrotar as tentativas de se fazer o Cristianismo original de gnóstico, ver J. P. Holding, “Those Naughty Gnostys!” – http://www.tektonics.org/gk/gnostpaul.html.

 

[41] Starbird participou de um programa no horário nobre, onde ela argumentou que João 20:17, “Não me toque”, implicava uma relação muito próxima entre Maria e Jesus, pois a palavra “toque” significava se apegar a alguém [neste caso, no sentido de se dar as mãos fortemente]. O estudioso evangélico Darrel Bock respondeu que a reação de Maria foi simplesmente de devoção e emoção ordinárias. Bob Passantino comenta: “Jesus ficaria por perto por 40 dias, propiciando múltiplas evidências de sua ressurreição, de forma que Maria não tinha que temer a partida imediata e sem retorno de Jesus. Não havia razão para se segurar pelas mãos alguém que não estava com pressa de partir! O principal propósito das aparições após a ressurreição foram justamente provar que ele ressuscitara no mesmo corpo, agora glorificado, mas que antes havia sido crucificado. Não foi uma ressurreição “espiritual” e efêmera/passageira, incapaz de ser verificada empiricamente (Lucas 24:39)”.

 

[42] Miesel [Ver mais no link original, na seção de sugestões para aprofundamento do tema] acha que esta afirmação de Brown é surpreendente e adiciona a seguinte crítica específica sobre outra afirmação: “Além disso, [Brown] diz que o tetragrammaton YHWH deriva de ‘Jehovah, uma união física andrógina entre o masculino Jah e o nome pré-hebraico de Eva, Havah. Mas como qualquer estudante iniciante das Escrituras poderia te dizer, Jehovah na verdade é uma transformação, do século 16, da palavra Yahweh usando as vogais de Adonai (“Senhor”). O tetragrammaton na verdade é derivado do verbo em hebraico ‘ser’ e é uma indicação da natureza eterna de Deus, não tem relação com sexos ou mistura de sexos”.

 

[43] Brown, 341.

 

 

Tradução: Maximiliano Araújo. maxaug@gmail.com