Por algum outro nome?

O que é “Agape” e como funcionava?

Por James Patrick Holding.

 

 

O que é agape, ou “amor”, como é traduzido? O NT nos diz:

Amarás o próximo como a ti mesmo.

Lemos tais passagens e tendemos a supor imediatamente que “amor” significa o que significa para nós nos tempos modernos – neste caso, um sentimentalismo piegas que nunca diz uma palavra dura e nunca pisa nos calos dos outros. A mesma palavra é usada em 1 Cor. 13 (embora apareça traduzida como caridade em algumas versões)

O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regojiza-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

A questão em debate: como tudo isso funcionava na prática? Agape significa não confrontar os outros com erro ou pecado? Precisamos de um relacionamento profundo (uma “ponte de 25 toneladas”, como um amigo diz) para nos aproximarmos de uma pessoa e corrigi-la? Primariamente isto obviamente não faz sentido, desde que é claro que os escritores do NT estavam constantemente confrontando os outros em vários erros, mesmo pessoas que eles obviamente poderiam nem conhecer bem (mesmo se aceitarmos, erroneamente, que eles se relacionavam em termos individualistas modernos!). Isto toma um esforço “politicamente correto” para argumentar o contrário. Mas aí há uma visão mais moderada: Podemos confrontar, mas somente polidamente. Bem, isso também não faz muito sentido superficialmente, dado aos comentários muito abrasivos de Jesus e Paulo para seus oponentes (como os fariseus ou os gálatas “judaizantes”) e até mesmo companheiros crentes (como Pedro “Satanás”) em erro. Deveras, uma análise retórica das cartas de Paulo indica que ele usou táticas de retórica muito afiadas que teriam envergonhado seriamente seus oponentes e até mesmo seus leitores.   

A resposta é uma das duas a seguir: 1) O NT ensina, mas não pratica ágape; 2) Nós não estamos entendendo o que ágape significa. E como já acontece, os dados da ciência social nos dizem que a segunda resposta é a certa. A seguir vamos recolher alguns pontos que alguns leitores poderão reconhecer de ensaios anteriores daqui do tektonics.org; mas há também algum material novo adicionado.

A diferença chave em entender o significado de ágape é reconhecer que nossa cultura é centralizada no indivíduo, enquanto a antiga sociedade bíblica (e 70% das sociedades hoje) era centralizada no grupo. O que é bom para o grupo é que é mais importante. Conseqüentemente, quando o NT fala em ágape ele se refere ao “valor da conexão grupal e seus laços” [Malina e Neyrey, Portraits of Paul, 196]. Agape não é uma troca em nível pessoal e “tem muito pouco a ver com sentimentos de afeição, sentimentos de ternura, e uma afinidade animada e entusiasmada”. É um dom que põe o grupo em primeiro lugar.

Com isso em mente, que dizer da passagem que nos diz “ame seus inimigos”? Como isso harmoniza com passagens onde Jesus insulta os fariseus, ou Pedro “Satanás”? Como isso harmoniza com o desejo de Paulo pela emasculação de seus oponentes gálatas (Gal. 5) e envergonha os gálatas com sua retórica? Como isto se harmoniza em confrontar outros em pecado e erro, por causa disso?  

Dada a definição de “conexão grupal” acima, será melhor entender ágape como um conceito paralelo a outro conceito conhecido de hoje – não amor, mas amor duro. Por causa do estado alerta da cultura popular eu farei referência ao talvez mais famoso exemplo de “amor duro” conhecido hoje – Joe Clark, o diretor do colégio de Nova Jersey (cuja história foi contada no filme Lean on Me), que esvaziou seu colégio e fez dele um lugar seguro para aqueles que queriam aprender.

Clark não era sentimentalista! Ele chutou para fora da escola todos aqueles que interrompiam o aprendizado dos outros. Ele usou de compulsão física para fazer o que foi preciso. Ele usou um alto-falante pra chamar a atenção das pessoas. Isto é ágape? Sim, é! É a forma bíblica de ágape na qual Clark valorizou o que era melhor para seus alunos como um todo do que a vontade individual.

Agora considere este entendimento em luz do, por exemplo, confronto de Jesus com os fariseus e outros. Há uma complexidade de emoções que achamos estranha, mas conceitualmente, é certamente possível alguém amar seus inimigos e também atacá-los; e o mesmo vale para discípulos ou aliados. Como os alunos perturbadores de Clark, os fariseus eram uma ameaça ao bem-estar dos outros; do mesmo jeito de Pedro, quando cometeu seu erro. Eles espalhavam enganos e falsidades e impediam os outros de entrarem no Reino de Deus com seus enganos; ou então levavam as pessoas para o caminho errado, distante da maturidade espiritual. Em tal cenário, não somente é certo e próprio, pela causa da ágape, confrontar e confrontar ousadamente; isto pode ser somente a única coisa responsável a se fazer para impedir a “doença” ou erro de se espalhar e afligir mais almas! (No mundo antigo, e mesmo hoje, insultos e polêmicas eram um modo de envergonhar e desacreditar um oponente; veja aqui [em inglês])

Então agape inclui ataques verbais e desacreditar os oponentes de alguém, ou confrontar outros crentes, quando estiverem errados. Jesus fala àqueles homens não como a seus inimigos, mas como inimigos da verdade. Não há indicação de que ele fale com eles como inimigos pessoais, pois todos os comentários dele refletem o logro deles nos outros; o relacionamento pessoal entre as partes nem mesmo vem ao quadro. Eles eram inimigos pela causa do Reino de Deus. Em comparação, alguém dificilmente suporia que Mateus 5:44 restringiria alguém de se alistar no exército e lutar numa guerra contra um Hitler ou um Stalin. Isto vira um caso de ter agape por um número maior, e geralmente inocente, à custa dos poucos que são culpados. A situação de Jesus com os fariseus e os outros atacados estava e muito nessa categoria, desde que suas ações punham em perigo o destino eterno ou a maturidade espiritual de outros.

Alguém pode dizer, “Mas e o exemplo do Bom Samaritano? Ele foi bondoso com um inimigo.” Mas ele foi bondoso para um inimigo pessoal; o homem não estava espalhando mentiras e enganando os outros! Aqui há o que se pensar: se Jesus estivesse atacando um fariseu e o homem tivesse do nada um ataque no coração e caísse no chão, agape  nos faria dar ao fariseu a reanimação cardiorrespiratória? Sim, faria. Nisso estamos fazendo do homem o nosso “próximo” e estendendo a mão das boas vindas, fazendo-o entrar na nossa comunhão. Então o que acontece? O fariseu pode continuar seus ataques contra a verdade depois de se recuperar; se é assim, ele ainda é um inimigo da causa do Evangelho e alguém para ser publicamente desacreditado. Mas se ele cai no chão novamente ainda trabalharemos para salvá-lo. Nossa sociedade moderna perdeu a habilidade de distinguir entre pecado e pecador; é freqüentemente aceitado que atacar a posição é atacar o indivíduo! Tal é o veneno da “tolerância” e justeza política.

 

 

Traduzido e adaptado por Caetano Grego.

 

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