Misericórdia de você?

 

A propriedade bíblica de “Misericórdia”

Por James Patrick Holding.

 

 

A propriedade bíblica de “misericórdia” na Bíblia não é bem como nós achamos que é em termos modernos. Hoje “misericórdia” comumente significa que paramos de castigar aquilo que é justamente merecido; ou significa refrear a entrega de dor ou punição, geralmente piedosamente. Mas não é bem isso o que a Bíblia tinha em mente, de acordo com o Handbook of Biblical Values [92ff], de Pilch e Malina.

Oséias 6:6 Pois misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mas do que holocaustos.

Pilch e Malina observam que em um contexto antigo, “misericórdia” é melhor representada como “gratidão” ou “amor firme”. Um exemplo da expressão de misericórdia seria o “débito de obrigações interpessoais por favores recebidos que não possam ser pagos novamente”. Em um caso assim, dizer, “Senhor, tenha misericórdia!” (Mat. 20:31) significa, “Senhor, pague seu débito de obrigações interpessoais para nós!” Não um apelo dos infelizes, isto é neste caso uma requisição de restituição de um favor adquirido anteriormente (como um vassalo real da dinastia Davídica/Messiânica).

Outro exemplo seria favor demonstrado dentro de um relacionamento de  amor em um sentido coletivo, inter-relacional. Misericórdia pode ser demonstrada simplesmente em entrar em tal relacionamento com alguém, e começar o processo recíproco de troca de favores. Misericórdia também não se envolve com sentimentos de compaixão, como hoje, ainda que não sejam mutuamente exclusivos; em outras palavras, você não precisa SENTIR-SE compassivo para oferecer a misericórdia bíblica.

 Tudo isto é para ser entendido não em termos de um inferior arrogante e não merecedor amolando um superior (como alguém pode pensar hoje, dizer que Deus nos “deva” alguma coisa), mas como uma faceta natural do relacionamento cliente-patrono no qual há o relacionamento de “reciprocidade contínua”, na qual “aqueles a quem alguém tem tal débito são igualmente obrigados a manter o relacionamento por meio de favores adicionais...” Os homens cegos honraram Jesus como o “filho de Davi” e esperavam reconhecimento da parte dele e que fosse retribuído com favor. Nada disso foi feito com ingratidão, como alguém poderia suspeitar hoje, pois Deus disse que seria glorificado por sua misericórdia (Rom. 15:9). É o papel de Deus como patrono suprir as necessidades de Seus clientes (nós) em amor constante e fidelidade, e este é um papel que Ele soberanamente e de boa vontade assumiu. Pilch e Malina observam que o relacionamento de gratidão aqui de fato é “contínuo” – não “episódico” como é na nossa cultura.

 E as implicações disto? A definição social própria de “misericórdia” traz uma guinada interessante para, por exemplo, a grande  pedra angular Calvinista em Romanos 9: “Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de Deus que paga seu débito de obrigação pessoal a nós como nosso patrono”, ou como aquele que instiga um relacionamento patronal. Para uma exegese adicional de Romanos 9 à luz disto, veja aqui (em inglês).

 

Traduzido e adaptado por Caetano Grego.

 

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